20Janeiro2018

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Conto: No ralo da pia

 

 noralodapia

Passou a mão pela água turva da pia, que, naquele mesmo momento,estaria escorrendo pelo ralo. Por cima, flutuando na água, dava para ver bem aquela gordura, aquele monte de gordura que logo estaria perdida em algum lugar desagradável de seu corpo. Seu abdômen era flácido, diferente de uns cinco anos atrás, quando havia se casado.

 

 – O tempo acabou comigo – dizia a mesma frase todos os dias e depois de dizê-la, abaixava a cabeça, com uma expressão triste nos olhos.
Por trás da parede da pia, ficava a sala de jantar e depois dessa, ficava a sala de estar.
 Havia lá dois sofás, uma pequena estante com livros de bolso, ventilador de teto, a televisão e algo que chamava a atenção de todas as visitas, um quadro. Era uma obra surreal, havia coisas voando, as estrelas não ficavam no céu, dava a impressão de que tinham acabado de cair e, por fim, um lago que refletia as estrelas que não ficavam no céu.
 Engraçado. Passado o tempo aquele quadro foi ficando maçante de olhar todos os dias, a família queria se livrar dele, mas então a sala ficaria monótona. Tinham consciência de que o quadro diferenciava a sala de qualquer outra na cidade.
“Eu ainda vou sair daqui”, pensou. Suportava tudo e todos, todos os dias dentro daquela casa. Queria porque queria sair de lá, mas não saía por quê? Nem mesmo ela sabia. Talvez fosse por medo. Preferia não ficar pensando no assunto.
 Um silêncio sepulcral que tomava conta da casa todas as manhãs. Ouviu-se então um ranger de porta, como todas as manhãs. O “senhor” tinha acabado de chegar. Foi até ele.
 Aquele sorriso, aquela sacola nas mãos, aquela flacidez no abdômen (por incrível que pareça, até a filha o tinha!), tudo parecia tão diferente do que via antes, as coisas haviam mudado para pior.
 – Veja só essas acerolas docinhas que eu peguei na chácara de um amigo lá do Nordeste. Ele veio passar uns dias aqui e tem uma fazenda enorme! – não confundiu as palavras, mentiu mesmo, tinha essa mania de exagerar nas coisas quando falava sobre seus amigos. – experimente, são docinhas! – abriu a sacola, rasgando-a, não tinha
paciência para desfazer os nós.
 Pegou uma acerola. Vermelhinha, com um tom meio alaranjado e umas partezinhas amarelas, era perfeita a seu ver. Chupou-a com vontade e se surpreendeu. A acerola não tinha nada de doce. Porém, chupou-a e jogou as sementes no lixo normalmente.
 – Obrigada. – ela falou bem baixinho enquanto ele fazia um gesto querendo dizer “pegue mais, são docinhas” para ela, olhando para a sacola.
 – E você ainda não terminou o almoço?
 – Nem comecei... – queria dar uma desculpa, mas achou melhor não, pelo menos dessa vez não, seria a terceira vez se ela o fizesse, ele com certeza estranharia.
 – Então faça, estou morrendo de fome – tirou a camisa suada e jogou-a em uma cadeira próxima. – hoje meu patrão estava um porre. Estou com dores nos pés e nas costas. Depois você me faz uma massagem neles? Aliás... Melhor dizendo, me dá uma pisada nas costas? – a mulher fez que sim com a cabeça. – Oh, que ótimo, você não sabe como é aquilo lá. Uma bosta mesmo, todo dia o pessoal vem com a mesma merda, todo dia um barraco, não sabem o que é fila, é incrível. Mas deixa pra lá, vamos com esse almoço!
 Foi então guardar as acerolas na geladeira, porque ele gostava delas bem geladinhas. Olhou-as com tanto repúdio que parecia que aquela seria a última gota. Não queria mais vê-las na sua frente. “Que ele se entupa e morra engasgado com as sementes desta merda!”. Foi ao encontro da pia, vasculhou a água que não desceu completamente pelo ralo, havia um palmo de água ainda. Foi lavar os copos, ele queria suco também, e bem fresquinho. No ralo a água turva e engordurada escorria.
 
 
 

por Liz Under

fotografia: JJr.

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